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Notícias

19/09/2017 15:50

Taís Araújo emociona público no “Mulher com a Palavra” no TCA

O Teatro Castro Alves (TCA) ficou lotado no terceiro encontro do ano de 2017 do projeto Mulher com a Palavra que recebeu, na noite de segunda-feira (18), a atriz Taís Araújo, convidada especial da Secretaria de Políticas para as Mulheres do Estado da Bahia (SPM-BA) e da Maré Produções Culturais. Os ingressos para esta edição esgotaram dez dias antes do evento, que discutiu o feminismo negro na internet a partir da trajetória da artista.

Com mais de 20 anos de carreira na televisão e no teatro, Taís atualmente é uma das artistas mais importantes na luta contra o machismo e o racismo no Brasil. O bate-papo mediado pela jornalista Rita Batista teve como tema a hashtag #SomosTodosTaísAraújo, uma referência ao apoio à artista depois de ter sido atacada por racistas nas redes sociais. O encontro foi dividido em três blocos. A atriz contou histórias pessoais, falou da carreira e do ativismo na internet, entre outras questões.

Na abertura do evento, a gestora da SPM-BA, Julieta Palmeira, subiu ao palco da sala principal do TCA e falou sobre o orgulho em trazer Taís, mulher negra e comprometida com o feminismo e que reforça a ideia do ativismo digital, utilizando a internet como ferramenta para combater o machismo e o racismo. Julieta também ressaltou que setembro é o mês da diversidade e saudou as mulheres LBTs (Lésbicas, Bissexuais, Transexuais e Travestis), além de agradecer as empresas patrocinadoras do evento, a Companhia de Gás da Bahia – Bahiagás e o Instituto Avon.

A Carreira

No primeiro bloco, Taís Araújo falou do começo da carreira, quando estreou aos 17 anos na televisão como Xica da Silva, um personagem ousado. Taís precisou fazer cenas de nudez e teve as fotos divulgadas em revistas e jornais da época. “Fazer Xica da Silva foi um grande aprendizado pra mim. Ver minha foto nua em todo os jornais no dia seguinte foi muito doído. As fotos foram vazadas sem minha autorização ou dos meus pais. Depois disso eu fiquei bastante tempo super mal resolvida com a questão da nudez na dramaturgia, me senti violentada”, declarou.

A artista relembrou personagens importantes em sua carreira, como as protagonistas Preta, da novela “Da Cor do Pecado”, e Helena de “Viver a Vida”. “A Preta é uma personagem que eu tenho um carinho imenso, uma relação de afeto. Hoje percebo que aquela novela representou muita coisa para as meninas negras e isso foi um passo muito importante”. Taís admitiu que o reencontro com sua ancestralidade e negritude foi um processo tardio e demorado. “Helena é a personagem que eu devo muito de mim a ela. Depois da Helena eu tive um reencontro comigo, depois da novela eu fiquei me questionando que tipo de atriz eu era, ai fui fazer o espetáculo “Caixa de Areia” e durante o processo criativo eu falei “Gente! Eu sou preta!”.

Torna-se negra

O processo de se perceber como negra foi transformador para a atriz, de 38 anos, e nessa trajetória a leitura do livro “Tornar-se Negro”, da escritora Neusa Santos Souza, foi fundamental. “Nesse livro a gente se encontra. É cheio de dor, mas ao mesmo tempo é muito acolhedor a consciência disso. É um resgate com a minha ancestralidade, com a minha história. Começamos a perceber que esse país vai minando a gente e quando há esse resgate, quanto mais você percebe que nossos ancestrais eram inteligentes, potentes, eles tentam desqualificar, dizem que é ‘mimimi’ para deslegitimar nossas dores e histórias”, desbafou.

O entendimento sobre o racismo chegou tarde à vida da atriz, de família de classe média alta do Rio de Janeiro. Taís admitiu que toda a família estava passando por um processo de embraquecimento: mudando de um bairro da zona norte, alisando o cabelo, tudo para se sentir pertencente a uma classe mais abastada. “Minha identidade negra foi construída aos poucos. Hoje meu cabelo é uma ferramenta política. Quando decidi parar de passar química não tinha motivo fazer essas campanhas publicitárias de cosméticos para alisar cabelo”.

Parceria

Casada com o ator Lázaro Ramos, Taís Araújo considerou enriquecedora a experiência de percorrer o Brasil ao lado do marido com o espetáculo “O Topo da Montanha” que encena a última noite de Martin Luther King. Mãe de um menino e uma menina, Taís Araújo teve medo quando soube que seria mãe de uma menina negra. “Não queria que minha filha passasse pelo que eu passei. Quando ela nasceu eu decidi que faria alguma coisa para tornar esse mundo melhor”. A atriz se emocionou ao lembrar da avó materna, que nem chegou a conhecer, mas disse sentir uma forte presença espiritual.

Taís Araújo foi escolhida pela ONU Mulheres como Defensora dos Direitos das Mulheres Negras. Quando teve sua página atacadas por racistas, nas redes sociais, recebeu o apoio de uma parcela significativa da população que postou a hashtag #SomosTodosTaísAraújo.. “Nesse dia dos ataques teve essa união e isso nos mostra que não podemos entender o feminismo sem entender que existe sim um recorte de raça, classe e gênero. Estamos num momento muito especial, temos conhecimento de coisas que não tínhamos antes e é importante pressionar quando vemos algo que é incabível. A internet é sensacional, tem uma imensa capacidade de unir e pressionar”.
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