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09/03/2018 15:00

A mulher fantástica baiana: Milena Passos e a trajetória de luta por direitos de trans e travestis

'Assumir o gênero feminino é perigoso', diz a primeira mulher trans do país em uma Secretaria de Políticas das Mulheres.

O título da reportagem faz referência ao filme chileno que deu o primeiro Oscar a uma atriz transexual. Em terras baianas, é Milena Passos que vem fazendo história na luta pelos direitos das mulheres trans e travestis. Ela é a primeira mulher trans do país em uma Secretaria de Políticas das Mulheres (SPM).

“Ser mulher no Brasil hoje é motivo de ter medo. Assumir o gênero feminino é perigoso"

A militância de Milena é ampla e abarca diversos outros movimentos, como o negro, por exemplo. Em entrevista ao G1 para o especial de reportagens do mês da mulher, a ativista tem pavor a ser tratada como "coitadinha" pela infância difícil e marcada pelo preconceito.

“Eu perdi meus pais muito cedo. Morei com a família um tempo, mas depois tive que sair de casa por causa da questão do meu gênero feminino, a questão da aceitação. A minha infância foi muito dolorosa porque eu sofria muito bullying na escola", lembra.

"Eu sempre fui mulher, desde criança. Eu me sentia uma criança diferente, tinha um pensamento diferente"

Natural de Salvador, Milena conta que tem três irmãos e chegou a morar com parentes em Santo Antônio de Jesus e Varzedo, cidades do interior baiano. De volta à capital, ela conta que a primeira pessoa que lhe estendeu a mão foi Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB). O professor, forma carinhosa como Milena se refere a Mott, dizia que ela prometia no movimento.

"Fui para as ruas, cheguei a ser profissional do sexo, mas encontrei pessoas boas. O professor dizia que eu prometia, foi algo meio místico"

A co-fundadora da Associação de Travestis de Salvador - ATRAS, Michelle Marry, que morreu em 2005, também foi uma das pessoas que ajudou Milena. Ela conta que, mesmo quando morava na rua, ela procurava ajudar as pessoas e até tirava do que recebia para dar ao outro. "Já coloquei muito gay no meu colo, muita travesti, já ajudei muita lésbica. Já ajudei muitas pessoas de várias formas, não só pessoas LGBTs, mas fazendo a minha trajetória".

E foi do contato com as ruas que a história de luta por direitos foi sendo costurada por Milena. Com orgulho, ela destaca que foi vice-presidente nacional de uma rede de pessoas trans, coordenadora do gênero feminino do GGB, fez parte do conselho nacional contra a discriminação [da presidência da república], e ainda atuou no conselho estadual contra o tráfico de pessoas.

"Fiz parte de vários momentos históricos no Brasil e na Bahia. Quando dei por mim, eu estava viajando pelo estado e discutindo política pela ponta"

O convite para a Secretaria de Políticas das Mulheres partiu da ex-secretária, Olivia Santana. Segundo Milena, a trajetória despertou a atenção da antiga titular da pasta. É com orgulho que a militante fala que foi mantida na SPM com a mudança de gestora, que atualmente é Julieta Palmeira. "Hoje eu estou no Conselho Estadual de Defesa da Mulher, contribuindo, ajudando na estrutura do conselho, que discute a política para as mulheres."

Sem tempo a perder, durante a entrevista, Milena defendeu ideias, revelou sonhos, destacou as 25 mortes de mulheres travestis de 2015 a 2017, segundo levantamento do GGB e ATRAS. Ela ainda falou sobre tabus, a começar pelo uso do banheiro por pessoas trans. Veja em frases os posicionamentos da ativista:

Uso do banheiro
Ficaria chato se eu fosse fazer xixi no banheiro masculino, e um choque para a sociedade, para as pessoas, né? Se eu sou do gênero feminino?

Violência de gênero

O Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo. É uma vergonha. E não tem nenhuma lei que nos assegure diretamente. Temos algumas brechas, como a Lei Maria da Penha, que já conseguiu proteger algumas meninas. Até a minha vida corre risco, eu enquanto ativista do movimento de mulheres e diversidade, trans LGBT, eu ultrapassei o movimento, eu corro risco. A violência contra a mulher está aí.

Infelizmente, mulher morre só por ser mulher, o ódio está aí. Quando você vai discutir mulheres negras, trans, quilombolas, indígenas, do campo, travestis...cada uma carrega seus estigmas. É um país machista, é um país sexista, é um país transfóbico, lesbofóbico. Se você é do gênero feminino, você corre risco.

Religião

A religião ainda tem influência nessa questão do gênero. O Estado tem que ser laico e isso ainda é preocupante. A cada dia que passa a gente vive expulsa dos espaços. Nós temos vários direitos violados.

Morte de travestis

Já que não tem nenhuma lei que criminalize, entregamos [eu e o movimento] um relatório dos assassinatos ao Ministério Público para cobrar punição para as pessoas que foram transfóbicas, que foram machistas, que foram racistas com essas pessoas. Os dados que nós temos é de jornais e pessoas que ficamos sabendo às vezes. Mas imagina aquelas que morreram na invisibilidade?

Racismo

É importante eu também puxar pelas minhas companheiras, mulheres negras, como eu, nessa luta contra o machismo para poder minimizar esses riscos. As LGBTs negras são as que mais morrem no Brasil. Isso me preocupa muito ainda.

Representatividade

Eu, como mulher trans, quero estar no dia da mulher. Eu sou a única pessoa trans no governo do estado. É preciso começar a conscientizar outras pessoas de outros movimentos para que possamos ocupar mais espaços de poder que nos representem.

Sonhos

Eu sonho que outras pessoas iguais a mim possam estar em outras secretarias, mas não por pena, e sim por dignidade e para quebrar o preconceito. Eu queria que as pessoas olhassem para nós como pessoas sérias e não com essa visão estereotipada reproduzida muitas vezes na mídia. Eu sou uma pessoa séria. Eu mato um leão por dia para estar em pé.

Eu sonho de ver ainda que essas coisas mudem. Meu papel aqui é tentar conscientizar a minha ponta e outros movimentos. Eu estou no movimento de mulheres, estou no movimento negro, conscientizando essas pessoas para começar a dizer que nós existimos, que merecemos respeito. E que possa ter uma lei que criminalize a violência contra a transfobia.

Entenda as múltiplas identidades de gênero

Cisgênera: pessoa que se identifica com o gênero que lhe foi atribuído no nascimento.

Homem cisgênero: pessoa que nasceu com o órgão sexual masculino e se identifica com o gênero masculino.

Mulher cisgênera: pessoa que nasceu com o órgão sexual feminino e se identifica com o gênero feminino.

Mulher transexual: pessoa que nasceu com o órgão sexual masculino e se identifica com o gênero feminino. Ela pode ou não ter passado por cirurgia de redesignação sexual.

Homem transexual: pessoa que nasceu com o órgão sexual feminino e se identifica com o gênero masculino. Ela pode ou não ter passado por cirurgia de redesignação sexual.

Travesti: pessoa que nasceu com o órgão sexual masculino, mas que se identifica com o gênero feminino. Por isso, considera-se como uma mulher travesti.

Transgênera: pessoa que não se identifica com o binarismo de gênero (masculino ou feminino) e transita entre esses dois polos. Às vezes o termo também é utilizado para agrupar as diversas identidades trans.

Pessoa não-binária ou gênero fluído: pessoa que não se sente confortável com uma divisão estanque entre gênero masculino e gênero feminino.

*O glossário acima foi feito em parceria com o coordenador do Grupo de Pesquisa Cultura e Sexualidade (CuS), Leandro Colling.

Fonte: G1
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